"Pois que então tento entender do ser e do não ser qual a questão" Oldney Lopes
quarta-feira, janeiro 31, 2007
ORFANDADE
Ai, esse fado, esse fardo!
Quantas mães eu tenho a dar-me à luz?
Quantas dão-me ervas, dão-me cruz?
Sinto-me, entretanto, vil, bastardo!
Ai, esse fado, esse fardo!
Ai, essa flexa, essa pecha!
Quais avós disputam-me, atrozes?
Quantas línguas dão-me suas vozes?
Quantas cores tenho, em cada mecha?
Ai, essa flecha, essa pecha!
Ai, essa dança, essa lança!
Quantos atabaques batucar?
Quantos bravos mares navegar?
Pero, vai, camiña, i non alcança...
Ai, essa dança, essa lança!
Ai, esse euro, esse ouro!
Quanto chão eu planto, e o fruto some!
Quanto pão fabrico, e passo fome!
Quanto sou arado, sou laboro!
Ai, esse euro, esse ouro!
Ai, minha mãe ingratérrima,
Ai, minha mãe portugália,
Ai, minha mãe menininha,
Quem me tinha? Quem me tinha? Quem me tinha?
Ai, minha mãe portunhola,
Ai, minha mãe euroásia,
Ai, minha mãe Pindorama,
Quem me ama? Quem me ama? Quem me ama?
Ai, tantas mães que me querem
Ai, madrastas que me ferem
Ai, quero a mãe língua-pátria!
Ai, minha mãe que me usa
Que me manda, que me abusa,
Dá-me a luz,
Dá-me à luz,
Dá-me à lusa!
Oldney
Pueril

Teu perfil
Tão sutil
Colorido
E garrido
No pomar
A brilhar
Amanhã
De manhã
Vem aqui
Me acordar
Quero ouvir
Teu cantar
Pousa aqui
Bem-te-vi
Oldney
terça-feira, janeiro 30, 2007
AMBISONHOS

Junte ímpetos e caprichos
Gulas e ânsias
Ganas e ganâncias
Monte uma escada
E suba para o nada.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
CHÃO DE NUVENS

CHÃO DE NUVENS
Eram de pedra os sonhos que eu sonhava
Firmes e fortes como rocha imensa
Eram matéria sólida e tão densa
Quanto era fraco o chão em que eu pisava
Um edifício sólido e seguro
De rochas firmes eu tentava erguer
Sem, no entanto, sequer perceber
O chão onde eu plantava o meu futuro
E vi que era no céu que eu erigia
Todo o porvir e toda fantasia
E fico perguntando o que restou
O que sumiu, o que ficou faltando?
O chão de nuvens, que pisei sonhando...
O céu de pedras, que desmoronou!
Oldney
domingo, janeiro 28, 2007
OS PALHAÇOS

Nesse céu sereno em que te encontras
Nesse mar de calma e de tranqüilidade
Nessas alturas de onde tudo vês
Dessas vertiginosas altitudes
Em que tens a teus pés homens e mulheres
Quem fitas?
A quem abençoas?
Para quem abres os braços?
Miras, porventura, o mar de infortúnio?
Enxergas o rio de sangue que escorre no asfalto quente?
Vês a torrente de suor e lágrimas que vertem no chão de fábrica?
No solo em que pisamos e vivemos
A serenidade sobrevoa, e só proporciona sombras
A calma e a tranqüilidade dão lugar à iniqüidade e ao desespero
Do nosso chão, o que vemos, o que temos, o que lemos?
É o agito que domina
É a tirania que impera
É o trabalho forçado que impõe
É o medo que ronda
É a encosta que desmorona
É a cratera que se abre
É a avenida inundada
É o dinheiro que falta
É a fome que sobra
Da altura em que te encontras,
Ergueste a tenda embocada para o solo
Mas nós, os palhaços,
Fomos deixados do lado de fora:
O picadeiro são as nossas vidas
E tu, que sobrevoas os céus
E pousas no planalto,
Sobes à tribuna,
E recitas o teu sermão:
Abençoados sejam os palhaços
Porque a eles serão dados pão e circo.
Oldney Lopes
terça-feira, janeiro 16, 2007
GAIA

Todo o segredo das entranhas das montanhas
Vai carregando em correntezas, a lavar
Ardis e iras, desamores, ódios, sanhas
O rio joga, em profundezas abissais
As excrescências desumanas dos humanos
Depois despeja em autoclismos colossais
O sangue, a guerra, o fel, o abuso dos tiranos.
O rio engole a dor, as sobras e o rejeito
Das agonias, do desprezo e do abandono
Que serpenteiam pelas curvas do seu leito
Até que sejam vomitados no oceano.
O mar infindo rasga o ventre e abre os braços
Recebe o rio e acolhe e louva e limpa e lava
Transpira bálsamos, na vastidão do espaço
Transforma em nuvem desavença, açoite e clava
O mar, de boca aberta, assopra e abençoa
E faz, do céu, a gigantesca embarcação
Que vai levar aos continentes, pela proa
As nuvens de pureza e de sublimação.
O vento carinhoso chega e estende a mão
Sustenta, forte, toneladas de água pura
Abana, esparge, espalha em toda a imensidão
Semeia chuvas de alegria e de ternura.
A chuva, lenitivo, é dádiva do céu
Que rega o chão sedento e faz brotar sorrisos
Transforma o solo seco num doce vergel
Recria, a cada dia, um novo paraíso!
Oldney Lopes
segunda-feira, janeiro 15, 2007
SONETO AO TEMPO
Jogam-se na vida sortes e azaresNos joga a vida ao tempo, ao nada, ao léu
Como se jogam dados, aos milhares:
Ingênuos Ícaros, subindo ao céu.
A vida é presente, e ele é dado
É dado que jogamos ao futuro
Pagando para ver o resultado
Que pode ser tão bom quanto obscuro.
Correndo vive o tempo, em vôo alado
Também correndo eu vejo, deprimido,
O tempo que ora vivo e já é passado:
O ontem, que passou sem ser vivido
O hoje, tão incerto e não sabido
E o amanhã, que se foi sem ter chegado.
Oldney
domingo, janeiro 14, 2007
DO LADO DE FORA DO RELÓGIO

Acordei sobressaltado: havia perdido a hora. Olhei de relance para o relógio da mesa de cabeceira e pulei da cama. Tomei um banho apressado e, quando fui colocar meu relógio no pulso, notei que não estava funcionando. Droga. Coloquei-o no bolso para levá-lo, quando tivesse tempo, ao relojoeiro. Na cozinha, olhando rapidamente para o relógio da parede, percebi que não teria tempo para o desjejum. Já no carro, no percurso entre Brumadinho e Ibirité, empreendendo toda a velocidade que a prudência e a sensatez permitiam, conferia, de minuto em minuto, o relógio, no painel. Num determinado momento, entretanto, constatei que já não havia nada a fazer: tinha perdido o compromisso.
Olhei para o lado e vi a Lagoa da Petrobrás. Uma paisagem serena, sossegada, bonita. O brilho dos primeiros raios do sol refletindo nas águas, o verde ao redor, os pássaros... Abri o vidro do carro e senti a brisa fresca da manhã. Reduzi a velocidade, entrei por um caminho que se ofereceu à minha frente. Parei.
Incrível. Havia anos e anos que passava todos os dias, duas vezes ao dia, naquele lugar, e nunca percebera tamanha beleza, tamanha paz. Sintonizei o rádio do automóvel. Tirei da estação de notícias, passei para uma emissora de músicas. Aumentei o volume. Saí do carro. Na relva baixa que cobria o solo, percebi um objeto que brilhava e, aproximando-me, percebi ser um relógio. Um relógio de bolso, prateado, aberto ao tempo. Aberto ao tempo, pensei. E vem uma borboleta, e pousa sobre o relógio. Fiquei sem saber se o tempo é o relógio parado no chão... Se é a borboleta... Se sou eu parado olhando os dois.
Fiquei ali pensando: quando paramos muito para olhar as horas, é sinal de que a vida anda atribulada, os afazeres andam sobrando, o tempo anda faltando...
Quando nos preocupamos muito com o relógio, é porque o tempo urge, as tarefas, as metas, as obrigações não podem esperar. Então fica aquela sensação de que estamos sempre correndo, sempre com pressa, sempre atrasados: o mundo parece ser um imenso relógio, que nos dita o ritmo, que nos dirige a vida. Parece que os homens estão todos encarcerados dentro desse descomunal relógio-mundo, pendurados nos ponteiros que giram celeremente, presos dentro do mostrador, agarrados nos números, prensados nas engrenagens.
Às vezes é necessário que ocorra algum fato inesperado, alguma surpresa, para cairmos na realidade e vermos que o mundo não está dentro do relógio.
É preciso saltar para fora da roda gigante, e parar para ver que podemos criar o nosso tempo. Temos, sim, os controles da máquina do tempo.
Aquele relógio, no meio do mato... Não. Não foi de alguém que perdeu o relógio. Foi de alguém que encontrou o tempo. Sabe o que fiz? Peguei no bolso meu velho relógio, joguei-o no mato, o mais longue que permitiram as forças do meu braço. Tirei os sapatos, abri a camisa, fiquei ali ouvindo música, sentindo a natureza. Quer saber por quanto tempo? Por todo o tempo que existiu naqueles instantes: todo o tempo do mundo. Depois voltei para casa, fui ler, escrever, esquecer.
Sabe, acho que tempo é a borboleta, é a relva, é a brisa fresca da manhã. É também trabalho. Mas é prazer, é lazer, é viver. O resto... bem... quem corre é o resto, não é o tempo. Quem corre somos nós. O tempo, veja só, está aí, à nossa disposição. A partir daquele dia, passei a ter uma certeza: a vida, meu amigo, está do lado de fora do relógio.
(Oldney)
foto: "Everlasting Time", de futiLE. Disponível em: http://www.olhares.com/everlasting_time/foto924723.html
ORAÇÃO PARA INICIAR O HOJE

"Hodierna curo tantum: quis cras futura novit?"
(Anacreonte / Schottus, Adagialia Sacra 15)
Que minha vida seja só de hojes
Hojes que se foram
Hojes que virão
Hojes que ora vivo
E, no dia de hoje, muitos hojes.
Não hojes existências de sucessos
Mas hojes sucessões de existências.
Quero a-cor-dar um lindo hoje a cada dia:
Que seja um hoje a cada tempo do viver
Pois hoje é instante único de ser.
Que eu viva cada hoje com maestria
Que eu ame um novo hoje a cada dia
Que eu busque hoje o que eu jamais fiz
Por isso, hoje, ainda hoje, e só por hoje,
Quero ser plenamente feliz!
Oldney
SONHAR

Cúmplice da magia de sonhar,
Fecho os olhos
Estendo o manto etéreo das imaginações
E adormeço para o mundo.
Busco aventuras
Invento ilusões
Descubro fantasias.
Passeando por todos os caminhos que traço,
Desenho flores nas encostas,
Semeio pássaros nos ventos,
Acendo estrelas na escuridão.
Suponho-me deus,
Flutuo nas águas,
Vôo às montanhas,
Caminho no céu,
Volito nas nuvens,
Danço na lua,
Pela manhã,
Volto ao meu planeta
Escorregando nos primeiros raio de sol
Derramo luz pelo horizonte
E tinjo de dourado toda a paisagem que a visão alcança.
É assim,Cúmplice da magia de sonhar,
Que verdadeiramente vivo.
E quando acordo,
Cúmplice da magia de viver,
Verdadeiramente eu sonho!
(Oldney)
sexta-feira, novembro 24, 2006
SÉTIMO SENTIDO

Cinco sentidos nós temos vivido
Cinco sentidos a nos dar sentido
Talvez um sexto: a nossa intuição
Dizendo mais que diz toda a razão.
Se não crês, entretanto, em veleidades
E se te apraz só materialidades
Abre a janela, numa aurora, um dia
Toma de um livro e lê uma poesia.
Mas, se, ainda assim, a vista faz-se escura,
E tens na boca o travo da amargura,
Ouve o poema que esta aurora canta
Sente o calor do sol que se levanta
O olor do ar que sopra com ternura
E vê que a vida é poesia pura!
Oldney
quarta-feira, novembro 01, 2006
SONETO DA INSENSATEZ

É triste o ser humano sem poesia
Que passa pela vida e não a sente
E tem a mente douta e a alma fria,
Metálica, vazia, dura, ausente.
É triste o ser humano sem poesia
Que traz no peito pedra e ferro e breu
Oceano impessoal de bastardia
Que estando vivo e novo, já morreu.
Insana flor que não escuta o vento
Não olha o sol, nem sente o seu alento
Não vê que o tempo passa e vem o fim
Pois tendo o alvorecer e o sol poente
E o pássaro a beijá-la docemente
Ignora a beleza do jardim.
Oldney
SONETO PARA BANDEIRA

Vomimbora, meu Bandeira, vomimbora
Pra Pasárgada, levar minha bandeira
Vou sair sem dar bandeira, a qualquer hora
Vou levando minha língua na algibeira
Vomimbora, meu Bandeira, prum lugar
Onde eu fale o que quiser e quando queira
Onde a fala é sem fronteira: é só falar
Sem gramática de língua brasileira
Vomimbora pra Pasárgada, Bandeira
Porque lá eu também sou do rei amigo
Escrever eu vou sem regras, como digo,
Minhas falas serão sempre alvissareiras:
Língua é cúmplice, bandeira, e não senhora
Vomimbora, meu Bandeira, vomimbora!
Oldney
SONETO PARA BILAC

VERSOS PLENOS
"O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava."
(Olavo Bilac)
Converso, “inania verba”, com Bilac:
Eu falo em decassílabos modestos
Junto meus pensamentos, cato restos,
Formo “instrumenta sceleris” de ataque.
Em dodecassilábico argumento
Ouço a grandeza das suas palavras
Que de sua alma potente são escravas
E no meu mouco ouvido são fermentos
E a ira muda? O desespero muda?
(Palavra proferida, alma desnuda!)
O corpo sente, e tem, no verbo, alento:
A mão que escreve mais que diz a boca
E o coração que pensa, em fúria louca,
Mais do que pensa o próprio pensamento.
Oldney Lopes
sexta-feira, outubro 20, 2006
PRESENÇA

PRESENÇA
Ainda sinto teu gosto em minha boca
Tenho ainda em meus olhos tua imagem
E reténs, em meu âmago, em voragem
Teus ímpetos febris de fera louca.
Ainda sinto o calor do teu suor
E tua aura provocante, nua, airosa
E a fragrância inebriante de tua rosa
Perfumando o espaço ao meu redor
Tu me invades, assim, a cada instante
E ocupas todo o sítio onde eu esteja
Meu ser se acende, o corpo te deseja
E quando tento tirar-te de mim
A mente nega, mas a alma almeja
Viver contigo essa paixão sem fim.
Oldney
terça-feira, outubro 10, 2006
CONVERSO

Como mandamos naves ao espaço
Navegarem, perdidas, no universo
Cada palavra que, pensando, traço
É espaçonave camuflada em verso
Lanço a um tempo que ainda há de existir
Os pensamentos que me vêm agora
Transpassam décadas que hão de vir
Palavras-naves pelo tempo afora
Escrever é verter idéia em letra
Dar ao etéreo forma e silhueta
Legar pensares à posteridade
Ao gravar no papel meu pensamento
Fossilizo o instantâneo do momento
Giro a ampulheta, forjo a eternidade!
Oldney
sábado, outubro 07, 2006
DOMINGO MINEIRO
Ouço o chiar da frigideira ao fogoSinto o aroma do alho sapecando
E aqui na mesa, a cachacinha e o jogo,
Um violão, um cantador tocando.
Lá na cozinha, mãos habilidosas,
Em fios finos vão cortando a couve
Na sala, a dona, enquanto ajeita as rosas,
Canta a canção, que embevecida ouve.
Vêm o amigo, o compadre, o vizinho,
Trazendo muito riso e algum agrado,
Um queijo, um doce, a pinga, o torresminho,
E vão se aprochegando, lado a lado.
A mesa, agora posta, une essa gente,
Em torno da comida e da bebida.
Enquanto a prosa corre alegremente
Festeja-se a amizade, em brinde à vida.
Batata doce, assada no borralho,
Tutu, arroz soltinho, e vêm com gabo
O angu e a costelinha, a couve ao alho
E a galinha caipira com quiabo.
Depois a sobremesa e o cafezinho
O sono, a paz, o cochilo ligeiro
Vai cumprindo-se, assim, devagarzinho,
Todo o sabor de um domingo mineiro.
Oldney
LADAINHA MINHA
A OUTRA MARGEM

Na outra margem do rio, moram sonhos impossíveis
Moram velhos vaticínios, mora um sorriso aprazível
Mora um olhar amigável, e a alegria indizível
Refletida na retina dos olhos embevecidos
De angústia e solidão, que olhando a imensidão
Fitando o longe e o nunca, enxergam maravilhados
O deleite da paisagem, que brilha do outro lado
Que mora na outra margem.
Mas a correnteza bravia
Grita sempre aos meus ouvidos, o mesmo e eterno estribilho
Dos lamentos doloridos, que ecoam no chão vazio
Do oco, do nada, do vão, do espaço surdo e sombrio
Dentro do meu coração.
Oldney
terça-feira, outubro 03, 2006
BAÚ ENCANTADO

Num dia de aniversário
Com bolo, velinha e balão
Brilho, luz, festa, magia,
Guardei no baú encantado
O meu rosto lambuzado
De cajuzinho e alegria
Guardei minhas fantasias,
Meus brinquedos de menino:
Os carrinhos sem rodinhas
A bola furada e murcha
Também a bola de meia
E as bolinhas de gude
As tampinhas de garrafa
O pião
O ioiô
O dominó
O pega-varetas
O resta-um
Guardei ainda as ilusões:
Meus sonhos de infância
Meus vaticínios
Minhas emoções.
Antes de trancar,
Guardei o Papai Noel
E o Coelhinho da Páscoa.
Guardei o sorriso de Mamãe
E a lágrima solitária do Papai
Emocionado ao me ver contente
Abrindo o meu presente
Na noite de Natal
(guardei também o Natal
e os ovos de páscoa)
Agora procuro a chave
Do meu baú encantado.
Constato, desapontado
Que a chave sumiu pra sempre:
Eu a perdi numa das voltas
Do ponteiro do relógio
Ou numa das que o mundo deu
Ou numa das folhas arrancadas
Do calendário de parede
Perdi a chave no passar da história
E o baú – já não mais encantado
Pra sempre estará trancado
Guardado, tão bem guardado
Na caverna escura da minha memória
Oldney
segunda-feira, outubro 02, 2006
VIRTUALMENTE CRÔNICO

Liguei meu computador numa dessas madrugadas em que o sono insiste em não chegar e, conectado à internet, em vez de buscar um sítio específico, como costumo fazer em tais ocasiões, comecei a navegar a esmo, até que, em algum momento, flagrei-me parado, olhando para a telinha cintilante. De repente, no alto da tela, vejo um simpático inseto verde, estático, fitando-me: uma esperança, ou "louva-a-deus", como é conhecido por aqui. Voltando meu olhar para dentro da tela, fiquei pensando em quanta coisa estava ali, tão longe quanto o lado oposto da Terra, e tão próxima – na distância de um clique.
A rede mundial de computadores é esse grande paradoxo, no qual estando solitário, estou no meio da multidão; fechado entre as paredes de uma pequena sala, estou em qualquer parte do mundo, quiçá do espaço. Uma antitética e confusa situação em que o virtual e o real não são demarcados por limites definitivos.
Enquanto imaginávamos o homem passeando pelo solo de Marte, ou desbravando a infinitude cósmica, um revés de eclosão faz com que o mundo se volte para o seu próprio interior – ovo gigante quebrando-se para dentro de si. Assistimos, estarrecidos, a toda a sociedade humana convergindo para dentro do computador, numa espantosa condensação de lugares, seres e épocas, capaz de provocar uma reviravolta espantosa nos tradicionais conceitos de tempo e espaço, e na forma de ver o mundo e as relações entre as pessoas. Notamos que o planeta inteiro cabe dentro de um quadradinho que brilha à nossa frente.
Ao mesmo tempo em que expandem-se as fronteiras do conhecimento científico e das informações, o mundo encolhe, as distâncias espaço-temporais encurtam, e o indivíduo é cada vez mais preso à solidão real e à socialização virtual. Isso preocupa-me. Se por um lado a vertiginosa ascensão do desenvolvimento tecnológico é salutar e desejável, é de se temer, entretanto, a franca decadência das relações tete-a-tete. Ouvi um amigo comentar que, no dia do seu aniversário, presenciou uma missa pela internet e acendeu uma vela virtual para o santo de sua devoção, acompanhando, nos dias seguintes, a progressiva queima. Vejo as salas de bate-papo e os encontros virtuais ficarem cada vez mais populares, e pergunto-me se isso está aproximando ou distanciando as pessoas. Quando ouço alguém falar em "exclusão digital", fico pensando em como o indivíduo excluído socialmente vem deixando de ser o sem-lar, o não alfabetizado, o desassistido, o faminto, o descamisado, para ser o desprovido de acesso à rede.
Sonho com um futuro em que a informática congregue os povos e os indivíduos, estreite e fortaleça laços de fraternidade e possibilite acesso ao conhecimento a cada ser humano. Mas suponho, repudio e temo um porvir no qual cada indivíduo viva trancado entre quatro paredes, de onde façam suas compras, trabalhem, orem, namorem, divirtam, pratiquem até sexo, fisicamente só, virtualmente conectado com toda a humanidade, como embriões dentro de ovos cuja casca jamais se rompa.
Volto o olhar para o distante mundo do meu lar. Quebra-se o encanto, desfaz-se a hipinose. Satisfeito, percebo que a esperança continua aqui, mãos postas, junto a mim...
Oldney
sábado, setembro 23, 2006
ENTRELINHAS

Cuidado, quando lês o que eu escrevo
E quando falas sobre o que escrevi
Pois leio muito, e lendo não me atrevo
A comentar aquilo que já li.
A pausa mostra sempre a frase oculta
A letra esconde o que eu não quis dizer
Se a fala é diferente do que escutas
É na entrelinha que tu podes ler
Sentença exata, não se faz, jamais
Tudo o que penso, tenho só comigo
Pois na escrita o gesto se desfaz
E vendo a guerra, posso dizer paz
A vírgula diz tudo, meu amigo,
Então, calado, digo muito mais!
Oldney
SONETO PELA LEVEZA DO DIZER

Se o poema tem que ser grafado em letras
Se o papel precisa ser impresso em tinta
Seja, a letra, mais sutil que a estrela extinta
Seja a tinta mais fugaz do que os cometas
Aqui deixo nulidades, vis reversos
Como dádiva sagrada a ti, leitor,
Sejas tu, teu pensamento, o estertor,
Das imagens que fizeres dos meus versos
Seja Ícaro alado a idéia pura
Não derreta a cera o sol de forma dura
Que a escrita não deturpe idéias minhas
E que as tintas não me manchem bons momentos
E que as letras não maltratem pensamentos
Que a palavra não estupre as entrelinhas
Oldney
VIVER DIVERSOS

Vivo do gosto dos sabores não provados
E das saudades de momentos não vividos
Vou por caminhos jamais antes percorridos
Sonhando sonhos atrevidos e ousados.
Se tenho sede, é na poesia que a sacio
Na solidão meus versos são meus companheiros
Vão dando forma aos pensamentos passageiros
Tornando a letra em ânsia e paz e guerra e cio
Os devaneios, tão fugazes, tão dispersos
Vêm em grinaldas, cascateando, em euforia
E viram versos, numa lírica alquimia.
Em um segundo vivo momentos diversos
Pois tenho a sorte de verter vida em poesia
E a ventura de saber viver de versos!
Oldney
MORRER DIVERSOS

ESTAR MORTO
(QUANDO ME FALTAM OS VERSOS)
“Agora eu estou morta.
Estou falando do meu túmulo.”
(Clarice Lispector)
Quando me faltam os versos
É o próprio ar que me falta
A própria água e o pão
Quando me faltam os versos
Falta-me a própria razão
Falta o sentido da vida
Faltam-me os pés, falta o chão.
Quando me faltam os versos
Faltam-me o belo e o altivo
O resplendor, o brilhar
Falta-me então estar vivo
Pois vivo de versejar
Quando me faltam os versos
Envolve-me a aura escura
Encarcera-me a angústia
Sufoca-me a amargura
Resta um sol que não fulgura
Flores secas, sem odor,
Restam manhãs sem ternura
Restam noites sem amor
Porque se me faltam versos
Vira o mundo sepultura
Sem alento, sem encanto,
Um existir frio e torto,
Pois dentro de um peito em pranto
Um coração bate morto.
Oldney Lopes
CAPTURA

CAPTURA
Escapa-me, por vezes,
Um pensamento qualquer
Leve, limpo, ligeiro e livre
Como corcel alado
A volitar, etéreo,
Além da orla da minha aura
Tento laçá-lo
E se consigo
Transfigura-se
Toma peso de mastodonte
Cai na intenção do raciocínio
Cai nas armadilhas da língua
Cai nas grades da tinta
Cai nas masmorras do papel
Cai.
Oldney
A PRIMEIRA LÁGRIMA
Sob a pressão das pálpebras contida
Numa expressão de dor transfigurada
Presa no peito arfante, comprimida
Vislumbra os cílios da alma torturada
E quando encharca, enfim, toda a retina
Mas, impotente, temente à explosão
Agora equilibrista e bailarina,
Sustenta-se em dorido esforço vão
Mas quando o jorro da emoção vence a razão
Brota a primeira lágrima, calada
Vertendo a dor que nasce ao coração
Desaba, pela face, aliviada
Clareia e desabafa a alma magoada
E uma só gota, agora, é turbilhão!
Oldney
A SEGUNDA LÁGRIMA
A SEGUNDA LÁGRIMA
A lágrima é o reflexo da dor
Condensação de um viver sem cor
Materialização de um sofrimento
E concretização de um sentimento.
Escorre, distraída, pelo rosto
Na alma desaba em profuso desgosto.
Como jorro de sangue inunda o espaço
E afoga o tempo, o temporal devasso.
Mas prantear é também ser feliz:
Se o corpo chora e a alma é quem diz
Quem chora é o peito alegre, o ser se acalma.
Então, que chore sempre o coração
Pois quando o pranto é pleno de emoção
A lágrima que rola é o gozo da alma.
Oldney
A TERCEIRA LÁGRIMA
(foto by Yves Gingres - in http://novosvoos.blogspot.com/2005/11/menino-de-rua.html)A TERCEIRA LÁGRIMA
“Si me flere, dolendum est primum ipsi tibi.”
Se o homem destemido jamais chora
Eu digo que até Deus pode chorar
Pois já que tudo pode, a qualquer hora
Pode também, sentido, lacrimar.
Pois vi, num rosto, a fome da criança
Carente, solitária, numa praça
Todo amargor, toda desesperança
Daquela vida só, fria, sem jaça.
Seus olhos eram vozes a implorar
Era um espelho, a angústia em seu olhar
A refletir, dolente, os olhos meus.
Sem entender o senso do destino
Vi merejar nos olhos do menino
Plácida e triste a lágrima de Deus.
Oldney
CRIÂNSIA

CRIÂNSIA
Queria estar vivendo nesta hora
O mundo imaginário dos meus sonhos
Das alegrias, dos fatos risonhos
Que infantilmente imaginei outrora
Contos de fadas, eu diria agora
Puerícia vil de menino mimado
Pelos seus pais extremamente amado
Até sair um dia, mundo afora
Mas hoje piso sobre os estilhaços
Dos castelos de cristal que um dia ergui
E tento em desespero unir pedaços
Do mundo tão bonito de “criância”
Que imaginei durante toda infância
Mas, triste, vejo hoje que os perdi.
Oldney
ESCUDO E FACA
terça-feira, setembro 19, 2006
G R A N D E (conto)

(foto by Finbarr O’Reilly, Agência Reuters, vencedora do prêmio World Press Photo - in: http://www.algarvedigital.pt)
GRANDE
(CONTO)
I
Dalila tem Hermínio no colo
Grande, é assim que Dalila via seu filho no futuro, através da névoa criada pelas lágrimas bailarinas que equilibravam-se em seus olhos, via-o famoso, influente, admirado, invejado por todos. Grande! Um grande homem. Segurava-o nos braços, ainda bebê, ainda pequenino, ainda frágil, mas haveria de se tornar um grande homem, pensava ela. Enquanto ele dormia, ela o fitava com lágrimas merejando nos olhos e jorrando no coração, e falava em pensamento, vou esfolá minhas mão, estropiá minha coluna, mas hei de fazer de tu um grande homem, não hei de deixar tu ser pequeno como seu pai e como seu avô, que Deus os tenha, nem que tenha de lavar mil trouxa de roupa por dia, nem que tenha de viver de sol a sol enfiada no riacho, nem que tenha de varar as noite em claro passando e engomando, tu há de ser grande, há de sair desse miserê, e nada há de mudar seu destino, nada há de desvia ocê do caminho, não vai ter pedra nem revólver nem canhão nem bomba capaz de te machucá, nem tempestade nem vendaval nem raio capaz de te jogá no chão, e há de mostrá pro mundo a que veio, ora essa, e há de transformá em glória todos os fracassos que tivemos, e em vitórias todas as derrotas que penamos, e em sucesso todas as vergonhas que sofremos, e há de mostrá pra todos os que fez nós sofrer que o mundo dá muitas volta e nessas volta que o mundo dá tudo é possível de acontecer e muita água há de rolar debaixo da ponte e muita coisa há de acontecer e você há de vencer e ver debaixo dos seus pés toda a gente que humilhou sua mãe e seu pai e seu avô e há de formar uma família rica e poderosa que nunca mais há de ser explorada e nunca mais há de ser envergonhada na frente dos outro e de hoje em diante minha vida vai ser toda para seu sustento e para seu estudo e para sua vitória, pois há de ser grande, muito grande na vida...
II
Dalila tem Hermínio no colo
Tu não deve abaixar a cabeça para nenhum colega, ora essa, se te xingou xinga ele também, se te bateu bate nele também, você não é menor que ninguém só porque é pobre e ele é rico e não tem de ficar apanhando de colega riquinho, não seja boboca se não te pisam em cima, deixa de ser trouxa e revida e se não resolver sozinho por lá me fala que vou na escola e baixo o barraco com a diretora que não é pra isso que pago escola particular cara pra ver meu filho levando porrada de coleguinha metido a valentão e a professora não fazendo nada só porque é rico e você é pobre, é pobre mas pago a mensalidade que é cara e nunca atraso porque sei honrar meus compromissos, então dá porrada também porque já tô cansada de ver seu avô levar porrada na vida até morrer e depois ver seu pai levar porrada na vida até morrer e agora não quero ver você levar porrada na vida até morrer, já tem dez anos e devia aprender a se virar ora essa, como é que vai crescer na vida se vive apanhando, não é peteca pra ficar levando tapa de todo mundo, mostra que é superior, dinheiro não é tudo, é pobre mas tem honra e orgulho próprio e não leva desaforo pra casa e há de ser grande e mostrar ao mundo e a essa gente quem é você, enxuga essas lágrimas e vai lavar a cara e tirar o uniforme que só tem esse, tem arroz e feijão quentinho, vê se pica um tomate e frita um ovo, cuidado pra não queimar e eu vou passar a roupa da dona Fátima do doutor Augusto e trata de fazer o para-casa e de estudar pra tirar nota boa que é pra isso que pago escola cara particular, é pra tu vencer na vida e deixa que a vasilha eu lavo que é pra ter tempo de estudar e tirar nota boa, vê se não deixa roupa espalhada no quarto, eu arrumei a sua gaveta que a sua gaveta tava uma desordem só, não bagunça ela de novo não, tá em cima do criado o lápis novo que eu comprei já tá apontado e vê se não me pede mais lápis, parece que engole lápis, que o material tá pela hora da morte e dinheiro não cai do céu...
III
Dalila tem Hermínio no colo
Deita aqui, filho, e põe a cabeça no meu colo, que mamãe tem que te falar umas coisa importante, e vê se escuta, porque filho meu não desiste não, ora bolas, já conseguiu nadar e vencer as maré e agora vai morrer na praia, de jeito nenhum, que ainda hei de ver tu formando, recebendo o diploma e todos batendo palma procê, nem pensa em desistir que o curso é bom e eu to pagando caro que é pra ver meu filho vitorioso, já passei muita humilhação e a medicina é profissão que dá dinheiro e tu há de ser o médico mais famoso desse país, às vez a gente faz o que não quer, pra ter o que quer, e tu há de gostar da profissão, quando tiver ganhando um rio de dinheiro, e se as nota tá fraca se vira e estuda e vara as noite em claro devorando os livro que isso mamãe não pode fazer pra tu, e se der branco na hora da prova, espicha os óio pra prova dos colega e trata de ganhar nota boa, que colar não prejudica ninguém, e seu avô e seu pai cansô de ser certinho na vida, os dois viveu com as mão calejada, de tanto trabaiá, os dois viveu com a pele curtida de tanto tomar sol e chuva e tirar da lavoura uns grão de mio e feijão e uma foia verde que mal dava pro nosso sustento, e os dois morreu pobre, os dois morreu sem dinheiro, sem glória, responde, filho, tu quer ser pequeno igual eles ou quer ser um homem grande, então para de chorar e de falar em desistir e tira dessa sua cabeça dura essa idéia de ser professor que professor só ganha pra mal viver e não é isso que eu quero pra tu e agora que consegui o crédito educativo vou dar conta de formar você, isso vou, ora essa, e não quero saber de filho meu desanimando à toa, tem que enfrentar os problema, tem que vencer as dificulcade, vai lá no quarto e vê lá em cima da cama o istestoscopo que me pediu e eu compreis às prestação, e o uniforme que fiz pra tu, ficou uma belezura e eu vou ficar muito orgulhosa de ver tu todo de branquinho igual um dotô, vou ficar toda prosa e mostrar pras minhas amiga, esse é meu filho, doutô em medicina.
IV
Hermílio sai do colo de Dalila
Eu sei, filho, que tu tem sua família, seus afazer, sua profissão, seus paciente, suas consulta, foi pra isso que te criei, pra ser gente importante nessa vida e agora tenho muito orgulho do filho que tenho e venceu na vida mostrando que é grande e não é pequeno como o avô, que não tinha onde cair morto e trabalhou a vida inteira e não conseguiu tirar a família da miséria, nem pequeno que nem seu pai, que morreu de tanto trabalhar, agora não tem que ficar ouvindo desaforo dos outros, não tem que ser humilhado por ninguém, então não fica triste não, que eu vou ficar muito bem aqui, já não tenho saúde pra ficar lavando roupa e também nem preciso porque não tenho mais despesa com tu e as minhas despesa eu tenho o salário da aposentadoria, não preocupa não que a mamãe vai ficar bem, aqui tem mais gente que nem eu e é tudo gente sofrida igual eu e que batalhou a vida inteira, aqui tem tudo que a mãe precisa, tem comida bem feitinha, roupa limpinha, uma toalha pra cada um, roupa de cama lavada e passadinha, tem até uma televisão e uma capelinha pras nossas oração, tem gente atenciosa cuidando da gente, não fica triste de me deixar aqui, que eu sei que vou ficar bem, só de saber que meu filho está bem e contente e feliz, com uma família bonita, uns filho bonito, uma mulher inteligente e bonita e doutora igual tu, os dois muito feliz cuidando dos filho, eu também fico muito feliz, vai filho, vai ser grande na vida, e não preocupa com a mamãe que ela vai viver contente porque conseguiu tudo que queria dessa vida, tudo que sempre pediu a Deus, vai, filho, vai ser grande na vida...
Então Dalila segue o filho até o portão do asilo, passos trêmulos, lágrimas merejando nos olhos e jorrando no coração, dá-lhe um último beijo, um demorado e úmido beijo na face, e fica ao portão, vendo seu filho todo bonito, todo elegante, todo de branquinho, distanciando-se, ficando cada vez mais longe, cada vez menor, e foi vendo-o diminuir, diminuir, e desaparecer...
segunda-feira, setembro 18, 2006
SER TÃO MINEIRO
(Brumadinho/MG)E tão sentimental e celerado
A minha alma de sonhos é canteiro
Onde cultivo um coração calado
Eu sou um trovador inveterado
Que fala em métricas e pensa em rimas
Das Gerais, falo e canto emocionado
dos ares, das paisagens e dos climas
Sou homem merencório das montanhas
A vagar solitário nos caminhos
A enxergar o murmúrio das entranhas
Das matas, terras, águas e dos ninhos
Alma notívaga a pairar silente
Na escuridão soturna dos umbrais
Sentindo a quintessêntica semente
De ódios e de amores eternais
Que renasce ao raiar de cada dia
Respira o céu, escuta o que o sol disse
E sente as guloseimas que aprecia
Pelo sabor, beleza e mineirice
Doce deleite que é poetizar
Ser tão poeta no sertão das Minas
Ouvir e ver o aroma deste ar
De flor e ferro e doce e pedras finas
Oldney Lopes - Poeta
- Oldney Lopes
- Mineiro, poeta, economiário, graduado em Letras, psicopedagogo, orientador de finanças pessoais.





