"Pois que então tento entender do ser e do não ser qual a questão" Oldney Lopes
terça-feira, fevereiro 02, 2010
BEIJO
terça-feira, outubro 13, 2009
HOMENAGEM AO PROFESSOR
Se os livros alimentam o saber
O mestre proporciona-lhes sabor
Se são enigmas a resolver
O educador é o codificador.
Que seria do livro e do leitor
Sem orientador a despertar
Idéias e sentidos, corpo e cor,
Na relevante ação de mediar?
Se há na escola uma qualquer contenda
O docente é o reconciliador
Se há conflito que obstrua a senda
O mestre mostra-se apaziguador.
Que seria de uma escola sem docentes?
Salas vazias e paredes nuas
Prédio deserto, árido e silente
Portal do nada, a esmaecer nas ruas.
É que a jornada, sem apoio e guia
É trilha escura, sem norte e sem destino,
Pois falta o rumo da sabedoria,
Facho de luz, clarão para o ensino.
Sendo os alunos pássaros que tentam
Os seus primeiros vôos do saber
É pelas mãos dos mestres que alimentam
A fome insaciável de aprender.
Se, entretanto, as agruras são gaiolas
Que encarceram o aluno em estupor,
A porta que liberta é a escola
E a chave que a destranca é o professor!
Oldney Lopes©
domingo, outubro 04, 2009
BALADA POR UM ANJO
Não sei se é anjo em forma de mulher
Ou se mulher em vulto angelical
Mas venha ela de onde vier
Recende o espaço em vórtice aromal
Não sei se é dado a mim, mortal, tocá-la
Quando a luz dos seus olhos resplandece
Mas grita o coração, e a boca cala:
Mais fecho os olhos, mais ela aparece.
Não sei se é dado a mim, mortal, beijá-la
Posto ser anjo, inatingível ser
Não sei se me percebe se ouso olhá-la
Ou se ignora e finge não me ver
Nem sei medir o tanto que a desejo
O tanto que imagino seus afagos
O tanto que eu anseio por seu beijo
O tanto de amor que no peito trago
Por isso a canto em cântico elegíaco
Numa balada de ardorosa ausência
Por ela sou loução, insão, maníaco
Mas amo amá-la, mesmo na demência.
E faço deste cântico a esperança
De tê-la um dia, talvez, nos meus braços
E de embalá-la em envolvente dança
Cobrindo-a com meus beijos e abraços!
Oldney Lopes©
RAPSÓDIA PELA DEUSA PRIMAVERA
Julgou ser deus, o poeta, num dia,
Sonhou criar sua deusa perfeita
Fez o mais lindo rosto na poesia
E o mais perfeito corpo em sua eleita
Bordou em versos de paixão e sonhos
A musa imaginária mais formosa
Criou em sua face olhos risonhos
E na sua pele a maciez da rosa
A fez com tanto esmero e perfeição
Fulgurando e perfumando a atmosfera
Que deu o poeta à sua criação
O nome mais florido: primavera!
Mas eis que achando-se, ainda um deus,
Tomou a criação por sua amada
E descobriu que os sentimentos seus
Eram de amor pela deusa engenhada.
De repente, era um deus que viu-se escravo
Do grande amor à deusa que criou
Que, outrora, em veste de guerreiro bravo
Diante da própria escrita, fraquejou.
Queria tê-la inteira e em pessoa
Com tal intensidade a desejava
Mas seu anseio, resultando à toa,
Jazia na vontade, ao léu ficava.
E quando, enfim, adormeceu exausto
Sobre o papel, sobre o seu próprio tema,
Senhor da criação, excelso, fausto
Entrou, em sonho, em seu próprio poema.
E lá estava ela, envolta em flores
E dentre as flores era a flor mais bela
E recendindo aromas e sabores
Compunha cores nobres de aquarela
Tomou-a nos seus braços, loucamente
Cobriu-a com afagos e carícias
Amou-a tão febril e intensamente
Bebeu da amada todas as delícias
No mundo onírico e inebriante
Em que viveu a ventura de amar
Quis ter eternamente a nova amante:
Sendo deus, resolveu não despertar
Rasgou com decisão o seu poema
Aprisionou-se no sonho em que era
Dono da felicidade mais extrema:
Ter por amante a deusa primavera!
Oldney Lopes©
ORAÇÃO PELOS MEUS OLHOS
Sejam meus olhos cálidos cadinhos,
Crisóis plenos de amor e de bondade,
Sejam dois fachos de serenidade,
Iluminando o chão dos meus caminhos.
Sejam duas janelas para o mundo
A receber e transmitir lições
De aprendizado e de saber fecundo
De caridades e abnegações
Sejam luzes brilhando, dia-a-dia
Proporcionando-me a sabedoria
Do progresso e do labor eficaz.
E quem olhar meus olhos veja, assim
Fulgor do brilho que resplanda em mim
De apoio, de amizade, amor e paz!
Oldney Lopes©
TEIAS E TRAMAS
Enquanto o poeta escreve
Tece a teia leve e breve
Diversos fios de versos
De sonho e de fantasia
Lá num cantinho do teto
A aranha, feito arquiteto
Tece multifios tersos
Fazendo também poesia.
Mas vem um inseto incauto
Fica preso lá no alto
E num só golpe, um reverso,
A aranha o faz eupepsia!
É que a aranha, em sua trama
Constrói armadilha e cama:
Ardil lírico e perverso
De prazer, poesia e dor
E o poeta, no papel
Tece um pedaço de céu
Um recanto do universo
Onde faz presa o leitor...
Oldney Lopes©
quinta-feira, julho 09, 2009
SONETO EM SI
Sona sonoridades soa harpejos
Refulge nos quartetos e tercetos
Fulgor de cores esplendor de beijos
Soneto em si é sinfonia leve
Iridescente escala em si bemol
Mínima, pausa, allegro em semibreve,
Legatos, staccatos e arrebol
Num instrumento lírico em que a si
La ba sibila e brilha em tons diversos
Vai o soneto versejando e di
Ver si fi can do em rimas o universo.
Entoa a idéia em verso fulgurante:
Cada soneto em si é di-amante!
Oldney Lopes ©
ROSA

Tão delicadamente se apresenta,
Orvalhada de aromas sedutores
Faz da flor do meu anseio alma sedenta
E se compraz em provocar-me agudas dores.
É como rosa, que com seu perfume
Desperta e exulta, insinua e atrai
Mas cobra amor e paga com ciúme
Aprisionando um ser que nunca a trai.
Que amor me oferta, se fico sozinho?
Que amor me dá, se nega-me carinho?
Um tal amor que esbofeteia e beija...
Tão traiçoeiro, sórdido e mesquinho,
Mostra-se pétala, se me deseja,
E quando me aproximo faz-se espinho!
Oldney Lopes©
CARTAS
O MENINO
A despeito da ditadura do relógio
E das rugas do espelho,
Insiste em viver.
Vez por outra,
Sai do CTI
E salta da maca da maturidade
Pulando, sorrindo, dizendo bobagens,
Fazendo molequices.
Outras vezes
Cai na opacidade,
Torna-se frágil
E desfalece diante da severidade
Do mundo e das pessoas.
Enquanto os antigos livros
Submergem no amarelecimento dos dias
O menino,
De vez em quando,
Traz à tona
Páginas novas, brilhantes, luzentes.
Depois volta a internar-se
No hospital das cínicas veleidades sociais.
Veste a capa da circunspecção.
Adoenta-se por não poder
Gritar seus anseios,
Viver seus desvarios,
Cumprir seus sonhos.
E volta ao coma...
Quando ressurge,
Confrontando-se comigo,
Percebo o quanto permanece sempre o mesmo.
E vejo que quem se esvai,
A cada dia,
Sou eu.
Oldney Lopes©
terça-feira, março 31, 2009
MENSAGEM DE PÁSCOA
Páscoa não é só alegria
Páscoa não é só poesia
Páscoa não é só chocolate
Não é só amizade
Não é só amor
Páscoa é renascimento
Renascimento remete a repensar a vida
As condutas
A forma de lidar com as pessoas
A forma de lidar conosco
Renascimento remete à necessidade
De pensar nos problemas do mundo
De avaliar que todos os problemas são meus problemas
E são seus problemas
Renascer é ver que
Tudo o que eu puder fazer pelo outro
Eu devo fazer como se fosse por mim
Renascer é agir para mudar a cada dia para melhor
Como se cada dia fosse uma nova vida
Somente assim, renascendo a cada dia
E a cada instante,
E fazendo renascer em nós os sentimentos
Mais puros e fraternos para com nossos irmãos
Somente assim faremos da Páscoa
Alegria, poesia, chocolate, amizade e amor!
E que a Páscoa seja sempre Paz!
Paz!
PazCoa!
Oldney Lopes©
terça-feira, março 03, 2009
PRECE DE GRATIDÃO

Agradeço à vida pela manhã
Fábrica de sonhos e tempo de orvalho
Preparação do solo
Imaginação de trilhas, estradas, pontes, escadas
Fantasias e quimeras
Jornadas nem sempre possíveis
Alvos quase nunca acessíveis
Riquezas jamais tangíveis
Beijos e toques inocentes
Carinho
Agradeço à vida pela tarde
Seara de semeaduras
Tempo de sol intenso, temporais
Suor e cansaço
Buscas e lutas
Dulçores e amarguras
Decepções e realizações
Beijos e toques maliciosos
Paixão
Agradeço à vida pela noite
Templo da sabedoria
Tempo de suave brisa
Hora das mais nobres reflexões
Momento da colheita
Descanso merecido
Verdadeiro amor
E o beijo de Deus
Agradeço à vida por toda a vida
Por atravessar cada dia
Sabendo converter o travor das vaidades humanas
Na delícia do gosto das maçãs
E por transpor todas as semanas e meses e anos e séculos
Com os pés e a alma nas manhãs
E que cada superação ou resignação,
Cada aceitação,
Cada perdão aos semelhantes meus
Seja um beijo
Que a cada dia
Procuro dar em Deus...
Oldney Lopes ©
terça-feira, janeiro 15, 2008
FINGIDOR (Diálogo com Fernando Pessoa)

COTIDIANO

A INTRUSA

sábado, dezembro 08, 2007
ORAÇÃO DE NATAL

(ode às virtudes)
Que no natal
Não faltem sonhos
Já que os sonhos impulsionam nossas vidas
Que no natal
Não falte a educação
Já que, educada, a humanidade prospera
Que no natal
Não falte a caridade
Porque com caridade, cessarão todas as fomes
Que no natal
Não falte o respeito
Porque havendo respeito, a convivência será harmônica
Que no natal
Não falte a fraternidade
Porque irmanados, não faremos guerras
Que no natal
Não falte a solidariedade
Porque solidários, nos fortaleceremos
Que no natal
Não falte dignidade
Vez que, havendo dignidade, seremos, de fato, humanos
Que no natal
Não falte amizade
Porquanto havendo amizade, não haverá solidão
Que no natal
Não falte o perdão
Pois havendo perdão, não haverá vinganças
Que no natal
Não falte a esperança
Pois havendo esperança, buscaremos, constantemente, novas alegrias
Que no natal
Não falte o amor
Pois reinando o amor, o ódio não terá lugar
E que as virtudes se espalhem
Por todos os dias
E por todas as criaturas
Para que todos os dias sejam
Verdadeiramente
Natal.
Amém!
Oldney Lopes ©
POESIA NA INTERNET

Brota do íntimo do coração
Oldney Lopes ©
segunda-feira, junho 11, 2007
O GRITO DO ESPELHO

No casarão antigo
Da memória
Ficou perdida
Num canto embolorado
De algum quarto escuro
A minha infância
Vagando pelo corredor deserto
Procuro-a com ansiedade
Mas em cada cômodo que entro,
Ao transpor cada porta
O que vejo é um espelho
A mostrar-me, impiedoso,
Gritando com seu silêncio,
Que a infância está morta.
Oldney Lopes
DE NOVO, O ESPELHO

Ele se põe em minha frente
Tento aboli-lo dos meus versos
Mas ele sempre ressuscita
Na morte das inspirações
E no velório das rimas
É tudo o que há de novo
É tudo o que há, de novo
Mostra-me indagações
Para as quais talvez
Eu não queira respostas
Eu nunca sei se ele está
Gritando verdades doloridas,
Sussurrando ironias atrevidas
Ou bendizendo mentiras desejáveis
Talvez a voz dele
Seja o eco da minha voz
No vazio que há entre nós
Num duelo interminável
Defrontamo-nos:
Ele com imagens
Eu com imaginações
Ele com reflexos
Eu com reflexões
Algum de nós com aparências
Algum de nós com transparências
Do brilho dele contra a minha opacidade
Entre o ilusório e a realidade,
Entre o delírio e a sanidade,
Fantasiamo-nos de rei e plebeu
E eu decreto:
Morte ao espelho,
Que o rei, aqui, sou eu!
Oldney Lopes
domingo, maio 13, 2007
segunda-feira, março 26, 2007
SOB GRILHÕES
O que o peito arfante geme em vão
Ou que um insano e breve gesto imite
A voz que se aprisiona ao coração
É necessário um rabiscar na areia
Um derramar de tintas pelo chão
Verter todo o vermelho que há na veia
Para expressar com veemência um não
É necessário um caminhar penoso
A lama, o charco, o pantanal lodoso
Rasgar o chão que abre e se incendeia
Pois sendo prisioneiro, sou tinhoso
Se mandam-me tiranos, sou teimoso
E viro sol se apagam-me a candeia
Oldney
domingo, março 25, 2007
ENFRENTAMENTO

Mesmo prevendo trágico desfecho
Nem masoquismo em exaltar derrotas
Quando o que vale é dar-me às tentativas
É que ao perder levo no peito a chaga
Aberta pelas clavas da batalha
Como medalha que ostentada encerra
Os méritos da dor de haver lutado
Prefiro, então o tilintar e os lustres
Das lâminas rasgando vento e derme
E o irreversível golpe de uma espada
Prefiro ser repasto dos abrutres
A adormecer incauto junto aos vermes
Na fria escuridão do eterno nada
segunda-feira, março 12, 2007
Houve uma época, na aurora da minha vida, em que sonhava sonhos impossíveis. Não distantes. Impossíveis. Sonhava-os com a certeza de que seriam realizados. Houve uma época em que, inocentemente, imaginava ser viável um mundo sem maldades, uma vida sem dores, uma sociedade sem brigas, uma existência sem lágrimas. Corri atrás desses sonhos. Investi neles meu tempo, meu vigor, minhas forças, minhas convicções. Percorri os dias mágicos da infância, os anos turbulentos da adolescência, as décadas pesadas da idade adulta. Hoje, nos séculos filosofais da maturidade, percebo que toda a ciência que pude colecionar, e que é quase nada, embora seja imensa, não conseguiu esfacelar meus sonhos. É que agora, não tão inocentemente quanto antes, ainda sonho com aqueles dias cantados e encantados por Lennon em "Imagine". Fico pensando se o encanto irá se quebrar na velhice. Creio que não. Creio, mesmo, que a velhice jamais chegará, pois é essa tola e bendita insistência em sonhar sonhos impossíveis que me faz prosseguir como uma criança, que trota numa vassoura acreditando ser o heróico cavaleiro do conto de fadas. Prefiro acreditar, então, que são sonhos distantes, porque, enquanto pensar assim, continuarei a persegui-los e a investir meu tempo, meu vigor, minhas forças, minhas convicções.
E como esse tipo de sonho parece não ser coisa de pessoas maduras, é minha infância que não acabou. É minha vida que, embora tenha andado a largos passos, continua no princípio. É a sábia conveniência da certeza de que o sol irá se pôr um dia, mas a aurora da vida deverá durar por toda a existência...
Oldney Lopes
domingo, fevereiro 18, 2007
TIESPERO
Teu amor para o meu coração
E respiro, por todos os ares
Esse amor com paixão, compaixão
Pois espero me dês de presente
No presente um futuro de a-dois
Um amor pra viver loucamente
Nosso tempo diagora-e-depois
Tiamarei, miamarás todavida
Tiadorando o ficar-a-teulado
Declinando o caminho da lida:
O meu mais-que-perfeito passado.
Mas, incauta e insensível, conjugas
Com desdém o verbo nãotiquero
E, teimoso, ignoro tuas fugas,
E tiespero, tiespero, tiespero.
É assim que conjugo, sozinho
O infinito do verbo “tiamar”
Na primeira e única pessoa
Do mais-que-singular.
Oldney
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
FERIDADE

Entre leões e tigres, e verei
Se neles posso achar a piedade
Que entre peitos humanos não achei”
(Camões – Os Lusíadas – Episódio de Inês de Castro)
Arrastado em alta velocidade
Pelo asfalto do chão da estupidez
É meu próprio coração que sangra
É meu próprio peito que sofre
É minha alma que clama por socorro
Sou eu que morro.
Atada ao desapiedado nó da perversidade
Quem sofreu? Quem penou? Quem morreu?
Presa ao cinto da crueldade insana,
Quem jaz? Eu?
Quem jazeu foi a dignidade humana!
Oldney
Um desabafo, por Sônia Prazeres
Sônia Prazeres
QUEBRAMAR

A sabedoria é onda
E o vento?
É muralha em movimento
Pensamento em revolução
Tentando jogar-me
Na rocha firme da certeza
E eu resistindo
E insistindo
Em permanecer
Nas ondas revoltas
Do mar bravio
Da dúvida eterna
quarta-feira, janeiro 31, 2007
ORFANDADE
Ai, esse fado, esse fardo!
Quantas mães eu tenho a dar-me à luz?
Quantas dão-me ervas, dão-me cruz?
Sinto-me, entretanto, vil, bastardo!
Ai, esse fado, esse fardo!
Ai, essa flexa, essa pecha!
Quais avós disputam-me, atrozes?
Quantas línguas dão-me suas vozes?
Quantas cores tenho, em cada mecha?
Ai, essa flecha, essa pecha!
Ai, essa dança, essa lança!
Quantos atabaques batucar?
Quantos bravos mares navegar?
Pero, vai, camiña, i non alcança...
Ai, essa dança, essa lança!
Ai, esse euro, esse ouro!
Quanto chão eu planto, e o fruto some!
Quanto pão fabrico, e passo fome!
Quanto sou arado, sou laboro!
Ai, esse euro, esse ouro!
Ai, minha mãe ingratérrima,
Ai, minha mãe portugália,
Ai, minha mãe menininha,
Quem me tinha? Quem me tinha? Quem me tinha?
Ai, minha mãe portunhola,
Ai, minha mãe euroásia,
Ai, minha mãe Pindorama,
Quem me ama? Quem me ama? Quem me ama?
Ai, tantas mães que me querem
Ai, madrastas que me ferem
Ai, quero a mãe língua-pátria!
Ai, minha mãe que me usa
Que me manda, que me abusa,
Dá-me a luz,
Dá-me à luz,
Dá-me à lusa!
Oldney
Pueril

Teu perfil
Tão sutil
Colorido
E garrido
No pomar
A brilhar
Amanhã
De manhã
Vem aqui
Me acordar
Quero ouvir
Teu cantar
Pousa aqui
Bem-te-vi
Oldney
terça-feira, janeiro 30, 2007
AMBISONHOS

Junte ímpetos e caprichos
Gulas e ânsias
Ganas e ganâncias
Monte uma escada
E suba para o nada.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
CHÃO DE NUVENS

CHÃO DE NUVENS
Eram de pedra os sonhos que eu sonhava
Firmes e fortes como rocha imensa
Eram matéria sólida e tão densa
Quanto era fraco o chão em que eu pisava
Um edifício sólido e seguro
De rochas firmes eu tentava erguer
Sem, no entanto, sequer perceber
O chão onde eu plantava o meu futuro
E vi que era no céu que eu erigia
Todo o porvir e toda fantasia
E fico perguntando o que restou
O que sumiu, o que ficou faltando?
O chão de nuvens, que pisei sonhando...
O céu de pedras, que desmoronou!
Oldney
domingo, janeiro 28, 2007
OS PALHAÇOS

Nesse céu sereno em que te encontras
Nesse mar de calma e de tranqüilidade
Nessas alturas de onde tudo vês
Dessas vertiginosas altitudes
Em que tens a teus pés homens e mulheres
Quem fitas?
A quem abençoas?
Para quem abres os braços?
Miras, porventura, o mar de infortúnio?
Enxergas o rio de sangue que escorre no asfalto quente?
Vês a torrente de suor e lágrimas que vertem no chão de fábrica?
No solo em que pisamos e vivemos
A serenidade sobrevoa, e só proporciona sombras
A calma e a tranqüilidade dão lugar à iniqüidade e ao desespero
Do nosso chão, o que vemos, o que temos, o que lemos?
É o agito que domina
É a tirania que impera
É o trabalho forçado que impõe
É o medo que ronda
É a encosta que desmorona
É a cratera que se abre
É a avenida inundada
É o dinheiro que falta
É a fome que sobra
Da altura em que te encontras,
Ergueste a tenda embocada para o solo
Mas nós, os palhaços,
Fomos deixados do lado de fora:
O picadeiro são as nossas vidas
E tu, que sobrevoas os céus
E pousas no planalto,
Sobes à tribuna,
E recitas o teu sermão:
Abençoados sejam os palhaços
Porque a eles serão dados pão e circo.
Oldney Lopes
terça-feira, janeiro 16, 2007
GAIA

Todo o segredo das entranhas das montanhas
Vai carregando em correntezas, a lavar
Ardis e iras, desamores, ódios, sanhas
O rio joga, em profundezas abissais
As excrescências desumanas dos humanos
Depois despeja em autoclismos colossais
O sangue, a guerra, o fel, o abuso dos tiranos.
O rio engole a dor, as sobras e o rejeito
Das agonias, do desprezo e do abandono
Que serpenteiam pelas curvas do seu leito
Até que sejam vomitados no oceano.
O mar infindo rasga o ventre e abre os braços
Recebe o rio e acolhe e louva e limpa e lava
Transpira bálsamos, na vastidão do espaço
Transforma em nuvem desavença, açoite e clava
O mar, de boca aberta, assopra e abençoa
E faz, do céu, a gigantesca embarcação
Que vai levar aos continentes, pela proa
As nuvens de pureza e de sublimação.
O vento carinhoso chega e estende a mão
Sustenta, forte, toneladas de água pura
Abana, esparge, espalha em toda a imensidão
Semeia chuvas de alegria e de ternura.
A chuva, lenitivo, é dádiva do céu
Que rega o chão sedento e faz brotar sorrisos
Transforma o solo seco num doce vergel
Recria, a cada dia, um novo paraíso!
Oldney Lopes
segunda-feira, janeiro 15, 2007
SONETO AO TEMPO
Jogam-se na vida sortes e azaresNos joga a vida ao tempo, ao nada, ao léu
Como se jogam dados, aos milhares:
Ingênuos Ícaros, subindo ao céu.
A vida é presente, e ele é dado
É dado que jogamos ao futuro
Pagando para ver o resultado
Que pode ser tão bom quanto obscuro.
Correndo vive o tempo, em vôo alado
Também correndo eu vejo, deprimido,
O tempo que ora vivo e já é passado:
O ontem, que passou sem ser vivido
O hoje, tão incerto e não sabido
E o amanhã, que se foi sem ter chegado.
Oldney
domingo, janeiro 14, 2007
DO LADO DE FORA DO RELÓGIO

Acordei sobressaltado: havia perdido a hora. Olhei de relance para o relógio da mesa de cabeceira e pulei da cama. Tomei um banho apressado e, quando fui colocar meu relógio no pulso, notei que não estava funcionando. Droga. Coloquei-o no bolso para levá-lo, quando tivesse tempo, ao relojoeiro. Na cozinha, olhando rapidamente para o relógio da parede, percebi que não teria tempo para o desjejum. Já no carro, no percurso entre Brumadinho e Ibirité, empreendendo toda a velocidade que a prudência e a sensatez permitiam, conferia, de minuto em minuto, o relógio, no painel. Num determinado momento, entretanto, constatei que já não havia nada a fazer: tinha perdido o compromisso.
Olhei para o lado e vi a Lagoa da Petrobrás. Uma paisagem serena, sossegada, bonita. O brilho dos primeiros raios do sol refletindo nas águas, o verde ao redor, os pássaros... Abri o vidro do carro e senti a brisa fresca da manhã. Reduzi a velocidade, entrei por um caminho que se ofereceu à minha frente. Parei.
Incrível. Havia anos e anos que passava todos os dias, duas vezes ao dia, naquele lugar, e nunca percebera tamanha beleza, tamanha paz. Sintonizei o rádio do automóvel. Tirei da estação de notícias, passei para uma emissora de músicas. Aumentei o volume. Saí do carro. Na relva baixa que cobria o solo, percebi um objeto que brilhava e, aproximando-me, percebi ser um relógio. Um relógio de bolso, prateado, aberto ao tempo. Aberto ao tempo, pensei. E vem uma borboleta, e pousa sobre o relógio. Fiquei sem saber se o tempo é o relógio parado no chão... Se é a borboleta... Se sou eu parado olhando os dois.
Fiquei ali pensando: quando paramos muito para olhar as horas, é sinal de que a vida anda atribulada, os afazeres andam sobrando, o tempo anda faltando...
Quando nos preocupamos muito com o relógio, é porque o tempo urge, as tarefas, as metas, as obrigações não podem esperar. Então fica aquela sensação de que estamos sempre correndo, sempre com pressa, sempre atrasados: o mundo parece ser um imenso relógio, que nos dita o ritmo, que nos dirige a vida. Parece que os homens estão todos encarcerados dentro desse descomunal relógio-mundo, pendurados nos ponteiros que giram celeremente, presos dentro do mostrador, agarrados nos números, prensados nas engrenagens.
Às vezes é necessário que ocorra algum fato inesperado, alguma surpresa, para cairmos na realidade e vermos que o mundo não está dentro do relógio.
É preciso saltar para fora da roda gigante, e parar para ver que podemos criar o nosso tempo. Temos, sim, os controles da máquina do tempo.
Aquele relógio, no meio do mato... Não. Não foi de alguém que perdeu o relógio. Foi de alguém que encontrou o tempo. Sabe o que fiz? Peguei no bolso meu velho relógio, joguei-o no mato, o mais longue que permitiram as forças do meu braço. Tirei os sapatos, abri a camisa, fiquei ali ouvindo música, sentindo a natureza. Quer saber por quanto tempo? Por todo o tempo que existiu naqueles instantes: todo o tempo do mundo. Depois voltei para casa, fui ler, escrever, esquecer.
Sabe, acho que tempo é a borboleta, é a relva, é a brisa fresca da manhã. É também trabalho. Mas é prazer, é lazer, é viver. O resto... bem... quem corre é o resto, não é o tempo. Quem corre somos nós. O tempo, veja só, está aí, à nossa disposição. A partir daquele dia, passei a ter uma certeza: a vida, meu amigo, está do lado de fora do relógio.
(Oldney)
foto: "Everlasting Time", de futiLE. Disponível em: http://www.olhares.com/everlasting_time/foto924723.html
ORAÇÃO PARA INICIAR O HOJE

"Hodierna curo tantum: quis cras futura novit?"
(Anacreonte / Schottus, Adagialia Sacra 15)
Que minha vida seja só de hojes
Hojes que se foram
Hojes que virão
Hojes que ora vivo
E, no dia de hoje, muitos hojes.
Não hojes existências de sucessos
Mas hojes sucessões de existências.
Quero a-cor-dar um lindo hoje a cada dia:
Que seja um hoje a cada tempo do viver
Pois hoje é instante único de ser.
Que eu viva cada hoje com maestria
Que eu ame um novo hoje a cada dia
Que eu busque hoje o que eu jamais fiz
Por isso, hoje, ainda hoje, e só por hoje,
Quero ser plenamente feliz!
Oldney
SONHAR

Cúmplice da magia de sonhar,
Fecho os olhos
Estendo o manto etéreo das imaginações
E adormeço para o mundo.
Busco aventuras
Invento ilusões
Descubro fantasias.
Passeando por todos os caminhos que traço,
Desenho flores nas encostas,
Semeio pássaros nos ventos,
Acendo estrelas na escuridão.
Suponho-me deus,
Flutuo nas águas,
Vôo às montanhas,
Caminho no céu,
Volito nas nuvens,
Danço na lua,
Pela manhã,
Volto ao meu planeta
Escorregando nos primeiros raio de sol
Derramo luz pelo horizonte
E tinjo de dourado toda a paisagem que a visão alcança.
É assim,Cúmplice da magia de sonhar,
Que verdadeiramente vivo.
E quando acordo,
Cúmplice da magia de viver,
Verdadeiramente eu sonho!
(Oldney)
sexta-feira, novembro 24, 2006
SÉTIMO SENTIDO

Cinco sentidos nós temos vivido
Cinco sentidos a nos dar sentido
Talvez um sexto: a nossa intuição
Dizendo mais que diz toda a razão.
Se não crês, entretanto, em veleidades
E se te apraz só materialidades
Abre a janela, numa aurora, um dia
Toma de um livro e lê uma poesia.
Mas, se, ainda assim, a vista faz-se escura,
E tens na boca o travo da amargura,
Ouve o poema que esta aurora canta
Sente o calor do sol que se levanta
O olor do ar que sopra com ternura
E vê que a vida é poesia pura!
Oldney
quarta-feira, novembro 01, 2006
SONETO DA INSENSATEZ

É triste o ser humano sem poesia
Que passa pela vida e não a sente
E tem a mente douta e a alma fria,
Metálica, vazia, dura, ausente.
É triste o ser humano sem poesia
Que traz no peito pedra e ferro e breu
Oceano impessoal de bastardia
Que estando vivo e novo, já morreu.
Insana flor que não escuta o vento
Não olha o sol, nem sente o seu alento
Não vê que o tempo passa e vem o fim
Pois tendo o alvorecer e o sol poente
E o pássaro a beijá-la docemente
Ignora a beleza do jardim.
Oldney
SONETO PARA BANDEIRA

Vomimbora, meu Bandeira, vomimbora
Pra Pasárgada, levar minha bandeira
Vou sair sem dar bandeira, a qualquer hora
Vou levando minha língua na algibeira
Vomimbora, meu Bandeira, prum lugar
Onde eu fale o que quiser e quando queira
Onde a fala é sem fronteira: é só falar
Sem gramática de língua brasileira
Vomimbora pra Pasárgada, Bandeira
Porque lá eu também sou do rei amigo
Escrever eu vou sem regras, como digo,
Minhas falas serão sempre alvissareiras:
Língua é cúmplice, bandeira, e não senhora
Vomimbora, meu Bandeira, vomimbora!
Oldney
SONETO PARA BILAC

VERSOS PLENOS
"O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava."
(Olavo Bilac)
Converso, “inania verba”, com Bilac:
Eu falo em decassílabos modestos
Junto meus pensamentos, cato restos,
Formo “instrumenta sceleris” de ataque.
Em dodecassilábico argumento
Ouço a grandeza das suas palavras
Que de sua alma potente são escravas
E no meu mouco ouvido são fermentos
E a ira muda? O desespero muda?
(Palavra proferida, alma desnuda!)
O corpo sente, e tem, no verbo, alento:
A mão que escreve mais que diz a boca
E o coração que pensa, em fúria louca,
Mais do que pensa o próprio pensamento.
Oldney Lopes
sexta-feira, outubro 20, 2006
PRESENÇA

PRESENÇA
Ainda sinto teu gosto em minha boca
Tenho ainda em meus olhos tua imagem
E reténs, em meu âmago, em voragem
Teus ímpetos febris de fera louca.
Ainda sinto o calor do teu suor
E tua aura provocante, nua, airosa
E a fragrância inebriante de tua rosa
Perfumando o espaço ao meu redor
Tu me invades, assim, a cada instante
E ocupas todo o sítio onde eu esteja
Meu ser se acende, o corpo te deseja
E quando tento tirar-te de mim
A mente nega, mas a alma almeja
Viver contigo essa paixão sem fim.
Oldney
terça-feira, outubro 10, 2006
CONVERSO

Como mandamos naves ao espaço
Navegarem, perdidas, no universo
Cada palavra que, pensando, traço
É espaçonave camuflada em verso
Lanço a um tempo que ainda há de existir
Os pensamentos que me vêm agora
Transpassam décadas que hão de vir
Palavras-naves pelo tempo afora
Escrever é verter idéia em letra
Dar ao etéreo forma e silhueta
Legar pensares à posteridade
Ao gravar no papel meu pensamento
Fossilizo o instantâneo do momento
Giro a ampulheta, forjo a eternidade!
Oldney
sábado, outubro 07, 2006
DOMINGO MINEIRO
Ouço o chiar da frigideira ao fogoSinto o aroma do alho sapecando
E aqui na mesa, a cachacinha e o jogo,
Um violão, um cantador tocando.
Lá na cozinha, mãos habilidosas,
Em fios finos vão cortando a couve
Na sala, a dona, enquanto ajeita as rosas,
Canta a canção, que embevecida ouve.
Vêm o amigo, o compadre, o vizinho,
Trazendo muito riso e algum agrado,
Um queijo, um doce, a pinga, o torresminho,
E vão se aprochegando, lado a lado.
A mesa, agora posta, une essa gente,
Em torno da comida e da bebida.
Enquanto a prosa corre alegremente
Festeja-se a amizade, em brinde à vida.
Batata doce, assada no borralho,
Tutu, arroz soltinho, e vêm com gabo
O angu e a costelinha, a couve ao alho
E a galinha caipira com quiabo.
Depois a sobremesa e o cafezinho
O sono, a paz, o cochilo ligeiro
Vai cumprindo-se, assim, devagarzinho,
Todo o sabor de um domingo mineiro.
Oldney
LADAINHA MINHA
A OUTRA MARGEM

Na outra margem do rio, moram sonhos impossíveis
Moram velhos vaticínios, mora um sorriso aprazível
Mora um olhar amigável, e a alegria indizível
Refletida na retina dos olhos embevecidos
De angústia e solidão, que olhando a imensidão
Fitando o longe e o nunca, enxergam maravilhados
O deleite da paisagem, que brilha do outro lado
Que mora na outra margem.
Mas a correnteza bravia
Grita sempre aos meus ouvidos, o mesmo e eterno estribilho
Dos lamentos doloridos, que ecoam no chão vazio
Do oco, do nada, do vão, do espaço surdo e sombrio
Dentro do meu coração.
Oldney
terça-feira, outubro 03, 2006
BAÚ ENCANTADO

Num dia de aniversário
Com bolo, velinha e balão
Brilho, luz, festa, magia,
Guardei no baú encantado
O meu rosto lambuzado
De cajuzinho e alegria
Guardei minhas fantasias,
Meus brinquedos de menino:
Os carrinhos sem rodinhas
A bola furada e murcha
Também a bola de meia
E as bolinhas de gude
As tampinhas de garrafa
O pião
O ioiô
O dominó
O pega-varetas
O resta-um
Guardei ainda as ilusões:
Meus sonhos de infância
Meus vaticínios
Minhas emoções.
Antes de trancar,
Guardei o Papai Noel
E o Coelhinho da Páscoa.
Guardei o sorriso de Mamãe
E a lágrima solitária do Papai
Emocionado ao me ver contente
Abrindo o meu presente
Na noite de Natal
(guardei também o Natal
e os ovos de páscoa)
Agora procuro a chave
Do meu baú encantado.
Constato, desapontado
Que a chave sumiu pra sempre:
Eu a perdi numa das voltas
Do ponteiro do relógio
Ou numa das que o mundo deu
Ou numa das folhas arrancadas
Do calendário de parede
Perdi a chave no passar da história
E o baú – já não mais encantado
Pra sempre estará trancado
Guardado, tão bem guardado
Na caverna escura da minha memória
Oldney
segunda-feira, outubro 02, 2006
VIRTUALMENTE CRÔNICO

Liguei meu computador numa dessas madrugadas em que o sono insiste em não chegar e, conectado à internet, em vez de buscar um sítio específico, como costumo fazer em tais ocasiões, comecei a navegar a esmo, até que, em algum momento, flagrei-me parado, olhando para a telinha cintilante. De repente, no alto da tela, vejo um simpático inseto verde, estático, fitando-me: uma esperança, ou "louva-a-deus", como é conhecido por aqui. Voltando meu olhar para dentro da tela, fiquei pensando em quanta coisa estava ali, tão longe quanto o lado oposto da Terra, e tão próxima – na distância de um clique.
A rede mundial de computadores é esse grande paradoxo, no qual estando solitário, estou no meio da multidão; fechado entre as paredes de uma pequena sala, estou em qualquer parte do mundo, quiçá do espaço. Uma antitética e confusa situação em que o virtual e o real não são demarcados por limites definitivos.
Enquanto imaginávamos o homem passeando pelo solo de Marte, ou desbravando a infinitude cósmica, um revés de eclosão faz com que o mundo se volte para o seu próprio interior – ovo gigante quebrando-se para dentro de si. Assistimos, estarrecidos, a toda a sociedade humana convergindo para dentro do computador, numa espantosa condensação de lugares, seres e épocas, capaz de provocar uma reviravolta espantosa nos tradicionais conceitos de tempo e espaço, e na forma de ver o mundo e as relações entre as pessoas. Notamos que o planeta inteiro cabe dentro de um quadradinho que brilha à nossa frente.
Ao mesmo tempo em que expandem-se as fronteiras do conhecimento científico e das informações, o mundo encolhe, as distâncias espaço-temporais encurtam, e o indivíduo é cada vez mais preso à solidão real e à socialização virtual. Isso preocupa-me. Se por um lado a vertiginosa ascensão do desenvolvimento tecnológico é salutar e desejável, é de se temer, entretanto, a franca decadência das relações tete-a-tete. Ouvi um amigo comentar que, no dia do seu aniversário, presenciou uma missa pela internet e acendeu uma vela virtual para o santo de sua devoção, acompanhando, nos dias seguintes, a progressiva queima. Vejo as salas de bate-papo e os encontros virtuais ficarem cada vez mais populares, e pergunto-me se isso está aproximando ou distanciando as pessoas. Quando ouço alguém falar em "exclusão digital", fico pensando em como o indivíduo excluído socialmente vem deixando de ser o sem-lar, o não alfabetizado, o desassistido, o faminto, o descamisado, para ser o desprovido de acesso à rede.
Sonho com um futuro em que a informática congregue os povos e os indivíduos, estreite e fortaleça laços de fraternidade e possibilite acesso ao conhecimento a cada ser humano. Mas suponho, repudio e temo um porvir no qual cada indivíduo viva trancado entre quatro paredes, de onde façam suas compras, trabalhem, orem, namorem, divirtam, pratiquem até sexo, fisicamente só, virtualmente conectado com toda a humanidade, como embriões dentro de ovos cuja casca jamais se rompa.
Volto o olhar para o distante mundo do meu lar. Quebra-se o encanto, desfaz-se a hipinose. Satisfeito, percebo que a esperança continua aqui, mãos postas, junto a mim...
Oldney
Oldney Lopes - Poeta
- Oldney Lopes
- Mineiro, poeta, economiário, graduado em Letras, psicopedagogo, orientador de finanças pessoais.





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